quinta-feira, abril 20, 2006

PORTUGAL E OS JUDEUS
VOLUME 1
dos primórdios da nacionalidade à legislação pombalina
RESUMO

Os judeus viveram em clima de relativa tolerância em Portugal desde a formação da nacionalidade no século XII, aumentando as suas comunidades até finais do século XV, época em que representariam cerca de 10% dos menos de 1.500.000 habitantes do país. A partir do Édito de Expulsão de D. Manuel I, em 1496, transformado em baptismo forçado no ano seguinte, a situação degradou-se e, após árduas tentativas do intolerante rei D. João III, a Inquisição foi introduzida em 1536, o que desencadeou o extermínio sistemático do judaísmo em Portugal. Esta situação só terminaria com a acção autoritária do Marquês de Pombal no último quartel do século XVIII e seria definitivamente afastada com a extinção da Inquisição pelo parlamento liberal em 1821.
As primeiras comunidades judaicas contemporâneas começaram a reconstituir-se no início do século XIX e, um século depois, revelar-se-iam ao mundo os criptojudeus sobreviventes do extermínio inquisitorial, que foram descobertos no interior do país, nas Beiras e em Trás-os-Montes, pelo engenheiro judeu polaco Samuel Schwarz. Pela acção determinada do capitão Barros Basto, também ele marrano, iniciou-se a chamada “Obra do Resgate”, que procurou trazer ao judaísmo oficial esses milhares de judeus secretos.
A literatura anti-semita que proliferou entre os séculos XVI e XVIII são fontes inestimáveis para a compreensão do anti-semitismo português. Também a acção filo-semita de personalidades tolerantes como o padre António Vieira, D. Luís da Cunha e o Cavaleiro de Oliveira demonstram que a resistência judaica teve o apoio de alguns dos nossos melhores intelectuais, que contribuiriam assim para o processo de emancipação dos judeus portugueses, iniciado no tempo de Pombal, continuado no período liberal e legalizado durante a I República.
Se a República constituiu uma verdadeira oportunidade para a emancipação judaica portuguesa, também proporcionou a emergência do anti-semitismo ideológico mais virulento, cujos principais arautos, António Sardinha e Mário Saa, teriam dignos discípulos em personalidades integralistas e nacionalistas, como Francisco Pereira de Sequeira e Paulo de Tarso e porta-vozes na imprensa, como o Serviço d’El-Rey e a Acção Realista.
As modernas comunidades israelitas portuguesas edificaram novas sinagogas de raiz, designadamente em Lisboa e no Porto, prosperaram de Norte a Sul, passando pelos arquipélagos dos Açores e da Madeira e envolveram-se nos esforços sionistas da construção da pátria judaica, entre finais do século XIX e meados do século XX.

12 comentários:

JORGE SEQUERRA disse...

É sempre tempo de assumir a História. Portugal tem ainda (por quanto tempo?) imensos problemas em falar das suas nódoas negras do passado. É também por isso que vai perdendo a sua consciência e identidade. Parabéns pelo magnífico esforço de revelar um dos capítulos mais negros da nossa história. Quem dera que ainda estejamos a tempo de construir um país.

Jorge Martins disse...

Caro Jorge Sequerra,
Claro que estamos sempre a tempo de construir um país, desde que assumamos por inteiro o que fomos e o que somos.
Abraço,
Jorge Martins.

Anónimo disse...

Caro Jorge Martins
Conhecendo os teus trabalhos anteriores sei que honras o teu afã de investigador nesta obra magnífica que cedes para o futuro da nossa História.
Que nunca se silenciem as vozes, como a tua, que não calam as injustiças que fazem parte da nossa identidade.
Nenhum povo pode apagar aquilo que o torna o que é, em todas as suas dimensões. Não fomos nós, hoje, que cometemos as atrocidades que relatas, e por isso não nos devemos sentir "culpados", mas isso faz parte da nossa memória colectiva e deve ser integrado na construção da nossa identidade - não somos culpados directos, mas temos o dever de obviar a que se repita, seja qual for a sua forma. Aquilo que somos resulta d'O Homem e da sua contingência (já dizia o filósofo), e a nossa contingência tem mais de 8 séculos. Nem tudo foram rosas, mas mais do que as pétalas são os espinhos que mais facilmente podem despertar as nossas consciências e tornar-nos pessoas melhores. Não há que ter vergonha em enfrentar a realidade.
Tu honras o trabalho sério de investigação, que infelizmente nem sempre se impõe nas obras divulgadas. Obrigada pelo teu trabalho e que continues a ser assim tão honesto, intelectualmente.
Abraço
Nérida Madeira

Anónimo disse...

Já agora...
a psicóloga emerge de quando em vez, e olhando o post do Sequerra, não posso deixar de dizer que nem a vergonha (como os orientais que cometem hariquiri) nem a culpa (nos ocidentais que entram em depressão)é solução. Temos mais é que ser assertivos e trabalhar para mudar o sentido das coisas.

Levante o queixo J. Sequerra e diga, estou aqui e estou vivo.
Beijinho

Anónimo disse...

P.S. sob pena de assassínio do tradutor do Mischima, o suicídio ritual dos japoneses foi traduzido em português por "haraquirir"

Anónimo disse...

parece que tirei o dia para pensar nos judeus...
Mas há uma questão que me faz cócegas.
Como ignorante no assunto, o decreto de D.João II, que concede o direito de conversão a moiros e judeus ao cristianismo, foi meramente interesseira e nem um laivo de humanidade se discerne?

Obrigada se responderes
Nérida

Jorge Martins disse...

Cara Amiga e Colega Nérida,
Peço-te imensas desculpas por não te ter respondido atempadamente aos teus comentários e à tua pergunta. Acontece que era suposto receber um e-mail com os "posts" e não recebi e, por isso, fiquei descansado, sem saber que tinha novos comentários.
Vou enviar-te um e-mail, mas deixo aqui também os agradecimentos públicos pelas tuas generosas palavras em relação ao meu trabalho.
Aproveito para te confirmar que o decreto de expulsão de D. manuel I, datado de 1496, não teve, infelizmente para os judeus e para o país, nada de humanitário. Foi um acto de brutal intolerância, até porque foi transformado em baptismo forçado no ano seguinte.
Beijinhos,
Jorge Martins.

Anónimo disse...

Caro Dr. Jorge Martins, estou desenvolvendo uma tese sobre o judaismo português na Universidade de Coimbra. Já estou lendo o primeiro volume da coleção Portugal e os Judeus e aguardando o lançamento do segundo Volume. Estarei lá. Um grande abraço. Aline Bernar

Jorge Martins disse...

Cara Drª Aline Bernar,
Peço desculpa pela resposta tardia ao seu comentário, mas, como o "post" era antigo, não tinha reparado nele. Obrigado pelas suas palavras. Agradecia que me contactasse para o meu e-mail, para conhecer melhor o seu trabalho na Universidade de Coimbra e dar-lhe a conhecer um centro de investigação que está a ser criado e a que eu estou ligado.
Um grande abraço e desejos sinceros de sucesso para o seu estudo.
Jorge martins

Anónimo disse...

Caro Dr. Jorge Martins, muito obrigada pela resposta e pela disponibilidade. Vou tentar contactá-lo assim que possível. Desejo conhecer o centro de investigação que está a ser criado e mais sobre os estudos judaicos em Portugal.
Grande abraço. Aline Bernar

Aline Bernar disse...

Caro Dr. Jorge Martins, através do Blogg não consigo ter acesso ao seu e-mail. O meu é (alinebernar@yahoo.com.br). Aguardo contacto para conhecer o seu. Grande abraço. Aline Bernar

Jorge Martins disse...

Cara Drª Aline Bernar,
Vou, então, enviar-lhe um e-mail.
Grande abraço,
Jorge Martins.