quarta-feira, julho 12, 2006

NO PRELO: PORTUGAL E OS JUDEUS - VOL.3

JUDAÍSMO E ANTI-SEMITISMO NO SÉCULO XX

RESUMO

A realidade judaica portuguesa das primeiras décadas do século XX teve duas fortes vertentes, a Comunidade Israelita de Lisboa, que edificava a Sinagoga Shaaré Tikvá em 1904 e alcançava, finalmente, o estatuto legal durante a República em 1912 e a chamada “Obra do Resgate”, iniciada pela descoberta do criptojudaísmo nas Beiras e em Trás-os-Montes por Samuel Schwarz e dirigida pelo capitão Barros Basto.
Também o sionismo passou por Portugal, com os projectos de colonização judaica de Moçambique em 1903 e o de Angola em 1912/1913. Nenhum deles vingaria, apesar de Angola ter constituído recorrentemente hipótese mais séria que Moçambique, que pouco mais foi do que uma manobra de diversão de Theodor Herzl para pressionar os britânicos nos seus verdadeiros intentos sionistas.
Ao contrário do século XIX, as primeiras décadas do século XX português foram marcadas pela emergência de um anti-semitismo ideológico, protagonizado por correntes nacionalistas, designadamente o Integralismo Lusitano, que emergiu durante a I República e, justamente, contra ela. O seu arauto maior foi António Sardinha, que propunha que a “raça Lusa” se defendesse da miscigenação de que fora vítima pela influência negra e judaica, sugerindo, em prosa e em verso, a acção de uma nova Inquisição purificadora. Tal como no resto da Europa – e um pouco por todo o mundo –, os Protocolos dos Sábios do Sião tiveram a sua primeira tradução portuguesa em 1923 e alimentaram as hostes nacionalistas lusas com o mito da conspiração judaica mundial, na fase terminal da República. Só não teve mais projecção entre nós naquela época porque a comunidade judaica portuguesa era minúscula e discreta.
Foi este o anti-semitismo lusitano, à medida dos nossos nacionalistas, que, não obstante, não fizeram passar o ideário antijudaico, nem para o regime que se começou a desenhar em 1926 e se edificou, com Salazar, a partir de 1932, nem para a criação de movimentos anti-semitas ou a organização de acções pogromistas. Em consequência, os nossos racistas não seriam protagonistas de qualquer movimento e o catecismo anti-semita não vingaria, podendo apenas registar-se alguns episódios privados e irrelevantes ou manifestações patéticas e anacrónicas, como foi a reedição dos Protocolos em 1976, em plena democracia pós-25 de Abril.
Foi em pleno regime republicano que emergiram à luz do dia das conservadoras terras interiores das Beiras e de Trás-os-Montes as comunidades marranas, esquecidas do judaísmo oficial, esquecidas do país, esquecidas do mundo, esquecidas até de si próprias. Novo abalo se sentiria nas hostes anti-semitas, que haviam sido emudecidas por Pombal desde o último quartel do século XVIII. Com efeito, se o século XIX não foi favorável ao crescimento dessas ideias entre nós, a proclamação da República e o resgate do criptojudaísmo veio proporcionar novos argumentos aos paladinos da intolerância, adversários da liberdade e da democracia. Barros Basto tornava-se assim o centro das atenções anti-semitas, enquanto se invocavam os Protocolos dos Sábios do Sião para confirmar as judaicas pretensões dominadoras do mundo e derruidoras do edifício católico.
Num balanço final da história dos judeus em Portugal, podemos concluir que o país nunca mais recuperaria a alma judaica, enterrada pela Inquisição e inviabilizada na sua forma única de sobrevivência: o marranismo. Forçados a abjurar o judaísmo, perseguidos por nos termos tornado cristãos-novos à força, impossibilitados de regressar ao judaísmo oficial e incapazes de criar uma igreja marrana, tornámo-nos um povo com identidade, não apenas múltipla e miscigenada, mas difusa e sempre dominada por uma angustiante duplicidade, que nos tem impelido, ora para a exagerada euforia optimista, ora para o recorrente pessimismo de não termos assumido uma identidade, qualquer que fosse, mas uma identidade assente em inequívocas raízes de pertença, interiorizadas em todas as suas dimensões.
Foi este o mais perene dos muitos crimes da Inquisição, que os dois séculos posteriores à tri-centenária história da intolerância não conseguiram reconciliar no ser português que somos hoje. Na verdade, perdemos a nossa plena identidade a partir do início do século XVI e nunca mais a recuperámos até hoje. Por outras palavras, apesar da tão propalada presença judaica no ser português, ainda não somos capazes de assumir, no século XXI, a dimensão judaica da nossa identidade. Isto é consequência da bem sucedida acção de desmantelamento da sociedade das três culturas – cristã, judaica e muçulmana – que Portugal esboçou na aurora da nacionalidade e se poderia ter aprofundado, não fora o infamante decreto de expulsão e o terrorista tribunal da Inquisição.
A desestruturação mental que o baptismo forçado e a acção inquisitorial operaram na sociedade portuguesa, obliterou o convívio inter-religioso e intercultural que se estava a construir ainda antes da fundação da nacionalidade e se aprofundou durante os séculos XII a XV. Foi a intolerância católica que impediu o português de quinhentos de ser o que era, de facto: um povo de raízes diversas. Essa amputação social, cultural e mental teria repercussões incomensuráveis em todos os domínios da vida portuguesa, acabando por atravessar a história dos judeus, dos marranos e dos cristãos (novos e velhos), que não mais puderam assumir-se em toda a plenitude do seu ser. Dos escolhos da(s) intolerância(s) emergiria um novo português, o português que todos nós somos um pouco: o marrano, que, quer queiramos ou não, ficou-nos como uma marca indelével.

7 comentários:

ezequiel disse...

Os meus sinceros parabens por esta magnifica obra.

Melhores cumprimentos,
ezequiel

Jorge Martins disse...

Obrigado pelo seu comentário, Ezequiel. A opinião dos leitores é decisiva para qualquer obra, sobretudo as críticas!...
Bem haja,
Jorge Martins

Anónimo disse...

top [url=http://www.c-online-casino.co.uk/]uk bonus casino[/url] check the latest [url=http://www.realcazinoz.com/]realcazinoz[/url] autonomous no deposit reward at the leading [url=http://www.baywatchcasino.com/]casino online
[/url].

Anónimo disse...

top [url=http://www.001casino.com/]001casino.com[/url] brake the latest [url=http://www.casinolasvegass.com/]casino games[/url] unshackled no deposit perk at the chief [url=http://www.baywatchcasino.com/]bay watch casino
[/url].

Anónimo disse...

I am really glad I've found this information. Today bloggers publish only about gossips and web and this is really irritating. A good website with interesting content, that is what I need. Thanks for keeping this web-site, I will be visiting it. Do you do newsletters? Can't find it. If any ones needs some expert web design or seo search engine optimization help check out my los angeles web design seo company website http://gotwebsiteandflyers.com/index-1.hml Los Angeles web designer los Angeles search engine optimization company they are able to move your website dominate on the internet. Valuable information. Fortunate me I found your web site unintentionally, and I'm stunned why this coincidence didn't happened in advance! I bookmarked it. I've been exploring for a bit for any high quality articles or weblog posts in this sort of area . Exploring in Yahoo I eventually stumbled upon this site. Reading this information So i'm glad to exhibit that I have an incredibly just right uncanny feeling I found out just what I needed. I so much for sure will make certain to do not fail to remember this web site and provides it a glance regularly.

Anónimo disse...

What if you want to add a little character to your outfit? I suggest spicing it up with a bit of contrast. For instance, if you donning a navy suit [url=http://www.paulsmithcity.com/]ポールスミスバッグ[/url] ポールスミス 財布 http://www.paulsmithcity.com/ with a grey pinstripe, pair a couple of grey socks with it. If you like to be a bit more daring, you could throw on boldly colored or patterned (or both!) socks and coordinate them with the color of your shirt, tie or pocket square.
I was upset because they [url=http://www.paulsmithland.com/]ポールスミス バッグ[/url] ポールスミス 財布 http://www.paulsmithland.com/ always had a nice selection of boy stuff and then one day it was gone. So I went home and complained. I was also pregnant w/ my third boy at the time. You can also add some raisins and cinnamon to taste. [url=http://www.paulsmithsunny.com/]ポールスミス バッグ[/url] ポールスミス 激安 http://www.paulsmithsunny.com/ Cook the quinoa according to the packet instructions, then add the apple a few minutes before the quinoa has completed cooking. Stir in the lemon juice, cilantro or raisins after turning of the heat as the quinoa cools.


Margarida Rodrigues disse...

Adoro o teu blog! Parabéns :)


http://www.europeanemaildatabases.com
http://www.worldemaildatabases.com
http://www.world-database.info
http://www.fichiersdemails.com
http://www.fichiers-de-france.com
http://www.fichiersdeurope.com
http://www.divulgaletter.net
http://www.portugalempresarial.net
http://www.lista-de-emails.com
http://www.italiadatabase.com
http://www.special-databases.com
http://www.revenderyodeyma.com
http://www.emailadresseslist.com
http://www.hi5porcas.net
http://www.ptmarketingsms.net
http://www.fichiers-sms.com