sábado, setembro 23, 2006

EXCERTO DO PREFÁCIO DE ANITA NOVINSKY AO 3º VOLUME DE "PORTUGAL E OS JUDEUS"


Passado um século e meio após a aparição da mais completa obra sobre a história dos judeus em Portugal, de autoria de Meyer Kayserling, nos presenteia Jorge Martins com uma nova história sobre judeus portugueses, que amplia largamente o livro pioneiro do rabino húngaro.
Jorge Martins ressalta a ausência de uma historiografia portuguesa sobre a história dos judeus, mostrando que os dois últimos séculos foram praticamente esquecidos, e apontando ainda quanto as correntes nacionalistas e integralistas foram responsáveis pela renovação de um racismo, e de um anti-semitismo, saudosos dos tempos inquisitoriais.
As principais pesquisas e interpretações, tanto sobre o período em que os judeus viveram em Portugal com autonomia e liberdade, como após o período que abriu a “era dos cristãos novos”, não foram feitas por portugueses, nem publicadas em Portugal. Apesar de alguns excelentes trabalhos terem sido escritos nas últimas décadas, pouca e pobre tem sido a historiografia portuguesa sobre os judeus, os cristãos novos e a Inquisição. Milhares de manuscritos continuam inéditos, desconhecidos e adormecidos nos arquivos portugueses. Jorge Martins vem agora nos três volumes de Portugal e os Judeus resgatar uma história dos Judeus e uma história de Portugal, e oferece aos estudiosos do assunto um material inestimável para novas reflexões.

Anita Novinsky (in Prefácio)
Setembro de 2006

quarta-feira, julho 12, 2006

NO PRELO: PORTUGAL E OS JUDEUS - VOL.3

JUDAÍSMO E ANTI-SEMITISMO NO SÉCULO XX

RESUMO

A realidade judaica portuguesa das primeiras décadas do século XX teve duas fortes vertentes, a Comunidade Israelita de Lisboa, que edificava a Sinagoga Shaaré Tikvá em 1904 e alcançava, finalmente, o estatuto legal durante a República em 1912 e a chamada “Obra do Resgate”, iniciada pela descoberta do criptojudaísmo nas Beiras e em Trás-os-Montes por Samuel Schwarz e dirigida pelo capitão Barros Basto.
Também o sionismo passou por Portugal, com os projectos de colonização judaica de Moçambique em 1903 e o de Angola em 1912/1913. Nenhum deles vingaria, apesar de Angola ter constituído recorrentemente hipótese mais séria que Moçambique, que pouco mais foi do que uma manobra de diversão de Theodor Herzl para pressionar os britânicos nos seus verdadeiros intentos sionistas.
Ao contrário do século XIX, as primeiras décadas do século XX português foram marcadas pela emergência de um anti-semitismo ideológico, protagonizado por correntes nacionalistas, designadamente o Integralismo Lusitano, que emergiu durante a I República e, justamente, contra ela. O seu arauto maior foi António Sardinha, que propunha que a “raça Lusa” se defendesse da miscigenação de que fora vítima pela influência negra e judaica, sugerindo, em prosa e em verso, a acção de uma nova Inquisição purificadora. Tal como no resto da Europa – e um pouco por todo o mundo –, os Protocolos dos Sábios do Sião tiveram a sua primeira tradução portuguesa em 1923 e alimentaram as hostes nacionalistas lusas com o mito da conspiração judaica mundial, na fase terminal da República. Só não teve mais projecção entre nós naquela época porque a comunidade judaica portuguesa era minúscula e discreta.
Foi este o anti-semitismo lusitano, à medida dos nossos nacionalistas, que, não obstante, não fizeram passar o ideário antijudaico, nem para o regime que se começou a desenhar em 1926 e se edificou, com Salazar, a partir de 1932, nem para a criação de movimentos anti-semitas ou a organização de acções pogromistas. Em consequência, os nossos racistas não seriam protagonistas de qualquer movimento e o catecismo anti-semita não vingaria, podendo apenas registar-se alguns episódios privados e irrelevantes ou manifestações patéticas e anacrónicas, como foi a reedição dos Protocolos em 1976, em plena democracia pós-25 de Abril.
Foi em pleno regime republicano que emergiram à luz do dia das conservadoras terras interiores das Beiras e de Trás-os-Montes as comunidades marranas, esquecidas do judaísmo oficial, esquecidas do país, esquecidas do mundo, esquecidas até de si próprias. Novo abalo se sentiria nas hostes anti-semitas, que haviam sido emudecidas por Pombal desde o último quartel do século XVIII. Com efeito, se o século XIX não foi favorável ao crescimento dessas ideias entre nós, a proclamação da República e o resgate do criptojudaísmo veio proporcionar novos argumentos aos paladinos da intolerância, adversários da liberdade e da democracia. Barros Basto tornava-se assim o centro das atenções anti-semitas, enquanto se invocavam os Protocolos dos Sábios do Sião para confirmar as judaicas pretensões dominadoras do mundo e derruidoras do edifício católico.
Num balanço final da história dos judeus em Portugal, podemos concluir que o país nunca mais recuperaria a alma judaica, enterrada pela Inquisição e inviabilizada na sua forma única de sobrevivência: o marranismo. Forçados a abjurar o judaísmo, perseguidos por nos termos tornado cristãos-novos à força, impossibilitados de regressar ao judaísmo oficial e incapazes de criar uma igreja marrana, tornámo-nos um povo com identidade, não apenas múltipla e miscigenada, mas difusa e sempre dominada por uma angustiante duplicidade, que nos tem impelido, ora para a exagerada euforia optimista, ora para o recorrente pessimismo de não termos assumido uma identidade, qualquer que fosse, mas uma identidade assente em inequívocas raízes de pertença, interiorizadas em todas as suas dimensões.
Foi este o mais perene dos muitos crimes da Inquisição, que os dois séculos posteriores à tri-centenária história da intolerância não conseguiram reconciliar no ser português que somos hoje. Na verdade, perdemos a nossa plena identidade a partir do início do século XVI e nunca mais a recuperámos até hoje. Por outras palavras, apesar da tão propalada presença judaica no ser português, ainda não somos capazes de assumir, no século XXI, a dimensão judaica da nossa identidade. Isto é consequência da bem sucedida acção de desmantelamento da sociedade das três culturas – cristã, judaica e muçulmana – que Portugal esboçou na aurora da nacionalidade e se poderia ter aprofundado, não fora o infamante decreto de expulsão e o terrorista tribunal da Inquisição.
A desestruturação mental que o baptismo forçado e a acção inquisitorial operaram na sociedade portuguesa, obliterou o convívio inter-religioso e intercultural que se estava a construir ainda antes da fundação da nacionalidade e se aprofundou durante os séculos XII a XV. Foi a intolerância católica que impediu o português de quinhentos de ser o que era, de facto: um povo de raízes diversas. Essa amputação social, cultural e mental teria repercussões incomensuráveis em todos os domínios da vida portuguesa, acabando por atravessar a história dos judeus, dos marranos e dos cristãos (novos e velhos), que não mais puderam assumir-se em toda a plenitude do seu ser. Dos escolhos da(s) intolerância(s) emergiria um novo português, o português que todos nós somos um pouco: o marrano, que, quer queiramos ou não, ficou-nos como uma marca indelével.

quarta-feira, junho 21, 2006

FOTOS DO LANÇAMENTO DO VOLUME 2 NA FNAC-COLOMBO DIA 2O DE JUNHO DE 2006

Fotos de Henrique Ribeiro, portal DIÁRIO DE ODIVELAS


A MESA DA SESSÃO DE LANÇAMENTO.


A INTERVENÇÃO DO EDITOR, DR. ASSÍRIO BACELAR.

A INTERVENÇÃO DA DRª ESTHER MUCZNIK.


A INTERVENÇÃO DE JORGE MARTINS.


A ASSISTÊNCIA.




O ACTOR JORGE SEQUERRA LENDO EXCERTOS DA "CRÓNICA DE D. MANUEL", DE DAMIÃO DE GÓIS.


JORGE SEQUERRA NA PELE DE UM INQUISIDOR NO PROCESSO DE DAMIÃO DE GÓIS.


O INQUISIDOR INTERROMPE O DISCURSO DE JORGE MARTINS.

O INQUISIDOR PROIBE O AUTOR DE CRITICAR A INQUISIÇÃO.


O INQUISIDOR CONDUZ O AUTOR AO PALÁCIO DA INQUISIÇÃO.


SESSÃO DE AUTÓGRAFOS.


terça-feira, junho 13, 2006

FNAC - COLOMBO, DIA 20, 18.30H

LANÇAMENTO VOLUME 2

Apresentação: Drª Esther Mucznik
Leitura de excertos da "Crónica de D. Manuel": actor Jorge Sequerra

sexta-feira, junho 02, 2006

PORTUGAL E OS JUDEUS - VOLUME 2

DO RESSURGIMENTO DAS COMUNIDADES JUDAICAS
À PRIMEIRA REPÚBLICA



A emancipação dos judeus franceses, em finais do século XVIII, abriria um ciclo de emancipações judaicas europeias, que se prolongariam pelo século XIX. Contudo, o despontar do moderno anti-semitismo europeu na segunda metade do século XIX, consubstanciado pela crescente literatura racista, suportada por pretensas teses “científicas”, criara condições para que o “affaire Dreyfus” se tornasse um caso de opinião pública internacional, chamando a atenção para a “questão judaica” que, afinal não havia sido enterrada pela onda de emancipação dos judeus no velho continente. Os pogromes na Rússia czarista, desde os primeiros anos de 1880 até início do século XX, com a prestimosa ajuda da mais controversa e célebre falsificação do século, levada a cabo pela Okhrana – Os Protocolos dos Sábios do Sião –, abririam uma nova fase para a situação dos judeus na Europa, desta vez, da Rússia à França. O mito da conspiração judaica mundial ganharia a primazia no combate dos anti-semitas europeus.
Foi neste difícil contexto que surgiu o sionismo político, corajosamente sugerido por Theodor Herzl, que ficara muito impressionado com os acontecimentos do caso Dreyfus, que presenciara e que o levaram a propor a criação de um Estado Judaico, como única solução para o inusitado anti-semitismo crescente, que fustigava dramaticamente os seus irmãos na Europa Oriental. Na realidade, o Estado judaico viria a tornar-se uma possibilidade séria, embora de difícil concretização.
Em Portugal, quando o parlamento liberal extinguiu a Inquisição em 1821 já os primeiros judeus marcavam presença, principalmente em Lisboa e nos Açores, onde haviam constituído comunidades organizadas. O ressurgimento do judaísmo português durante o século XIX seria uma realidade insofismável, embora não reconhecida oficial e legalmente pelas autoridades monárquicas. Tacitamente aceites e tolerantemente integrados na sociedade portuguesa, os judeus procederiam à sua organização, criando sinagogas, edificando cemitérios e afirmando-se no país, pela emergência de figuras gradas, que atingiriam o reconhecimento público em diversas actividades económicas, culturais, científicas e académicas.
O “affaire Dreyfus” revelou-se um excelente barómetro para atestar do estado da questão judaica em Portugal. E, de facto, desde 1820 não houve questão judaica portuguesa até à implantação da República. O movimento antidreyfusista não teve eco na sociedade portuguesa da época. Antes pelo contrário. Só no início do século XX, com António Sardinha, o maurrasiano mentor do Integralismo Lusitano, assistiríamos à emergência de um anti-semitismo ideológico, que se espalharia entre algumas das figuras mais conservadoras da direita nacionalista portuguesa durante os turbulentos anos da Primeira República.

sábado, maio 27, 2006

PREFÁCIO DE ESTHER MUCZNIK NO 2º VOLUME

Cabe-me o privilégio de fazer o prefácio para o II volume da obra “Portugal e os Judeus”, que corresponde à tese de doutoramento de Jorge Martins. Não é a primeira publicação do autor – há muitos anos que Jorge Martins vem estudando, investigando, ensinando e escrevendo sobre a temática judaica. A sua tese reflecte, pois, essa investigação aturada: nela sentimos uma atenção sustentada, um conhecimento aprofundado por anos de estudo e acima de tudo, uma real empatia com o objecto de estudo, indispensável a qualquer investigação séria. Analisando o seu trabalho ficamos com a clara noção de que não se trata de uma súbita e passageira paixão, mas de uma relação fecunda e duradoura.
(…) Não quero deixar de saudar o autor por este magnífico trabalho que permite trazer ao conhecimento do público interessado, um período muito rico, mas ainda pouco investigado e divulgado, da história de “Portugal e os Judeus”.

Esther Mucznik (in Prefácio)

sábado, maio 13, 2006

LANÇAMENTO DO 2º VOLUME DE "PORTUGAL E OS JUDEUS":
DIA 20 DE JUNHO, 18.30H, FNAC-COLOMBO.

quarta-feira, maio 03, 2006

CONFERÊNCIA, DIA 28, NO CLUBE LITERÁRIO DO PORTO


O livro "Portugal e os Judeus" será apresentado no Clube Literário do Porto, no próximo dia 28 de Maio (domingo), às 21.30h., seguida de uma conferência do autor, intitulada "A literatura anti-semita em Portugal"

domingo, abril 30, 2006

APRESENTAÇÃO DE "PORTUGAL E OS JUDEUS"

O 1º volume de "PORTUGAL E OS JUDEUS" foi brilhantemente apresentado pelo Dr. António Carlos Carvalho, na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 28 de Abril, cerimónia que terminou com uma excelente dramatização pelo actor Jorge Sequerra de excertos da "Consolação às Tribulações de Israel", de Samuel Usque.
Fotos de Henrique Ribeiro, do portal www.diariodeodivelas.com







quinta-feira, abril 20, 2006

“Jorge Martins, fiel às obrigações que o ser historiador lhe impõe, e à memória que os documentos colocam diante dos seus olhos, veio agora colocar uma importante pedra, sinal piedoso de lembrança e memória, nos túmulos dos muitos judeus portugueses que por cá ficaram, enfrentando o medo, a perseguição e o suplício, e dos outros, tantos foram, obrigados a buscar no desterro a salvação do bem mais precioso, o único verdadeiramente santo: a Vida. Mas que nunca esqueceram esta pátria madrasta.
Desde Mendes dos Remédios («Os Judeus em Portugal», 1895) que não tínhamos uma obra com esta ambição – contar uma História esquecida ou voluntariamente enterrada no labirinto dos arquivos. «Portugal e os Judeus» cumpre o projecto que Mendes dos Remédios não chegou a concluir e vai bem mais além, detendo-se na historiografia e no ensino da História nestes nossos dias de confusão e desorientação.”

António Carlos Carvalho
(do prefácio)
PORTUGAL E OS JUDEUS
VOLUME 1
dos primórdios da nacionalidade à legislação pombalina
RESUMO

Os judeus viveram em clima de relativa tolerância em Portugal desde a formação da nacionalidade no século XII, aumentando as suas comunidades até finais do século XV, época em que representariam cerca de 10% dos menos de 1.500.000 habitantes do país. A partir do Édito de Expulsão de D. Manuel I, em 1496, transformado em baptismo forçado no ano seguinte, a situação degradou-se e, após árduas tentativas do intolerante rei D. João III, a Inquisição foi introduzida em 1536, o que desencadeou o extermínio sistemático do judaísmo em Portugal. Esta situação só terminaria com a acção autoritária do Marquês de Pombal no último quartel do século XVIII e seria definitivamente afastada com a extinção da Inquisição pelo parlamento liberal em 1821.
As primeiras comunidades judaicas contemporâneas começaram a reconstituir-se no início do século XIX e, um século depois, revelar-se-iam ao mundo os criptojudeus sobreviventes do extermínio inquisitorial, que foram descobertos no interior do país, nas Beiras e em Trás-os-Montes, pelo engenheiro judeu polaco Samuel Schwarz. Pela acção determinada do capitão Barros Basto, também ele marrano, iniciou-se a chamada “Obra do Resgate”, que procurou trazer ao judaísmo oficial esses milhares de judeus secretos.
A literatura anti-semita que proliferou entre os séculos XVI e XVIII são fontes inestimáveis para a compreensão do anti-semitismo português. Também a acção filo-semita de personalidades tolerantes como o padre António Vieira, D. Luís da Cunha e o Cavaleiro de Oliveira demonstram que a resistência judaica teve o apoio de alguns dos nossos melhores intelectuais, que contribuiriam assim para o processo de emancipação dos judeus portugueses, iniciado no tempo de Pombal, continuado no período liberal e legalizado durante a I República.
Se a República constituiu uma verdadeira oportunidade para a emancipação judaica portuguesa, também proporcionou a emergência do anti-semitismo ideológico mais virulento, cujos principais arautos, António Sardinha e Mário Saa, teriam dignos discípulos em personalidades integralistas e nacionalistas, como Francisco Pereira de Sequeira e Paulo de Tarso e porta-vozes na imprensa, como o Serviço d’El-Rey e a Acção Realista.
As modernas comunidades israelitas portuguesas edificaram novas sinagogas de raiz, designadamente em Lisboa e no Porto, prosperaram de Norte a Sul, passando pelos arquipélagos dos Açores e da Madeira e envolveram-se nos esforços sionistas da construção da pátria judaica, entre finais do século XIX e meados do século XX.